As angústias de Cristo num país politeísta

ou A sutil diferença entre “paz” e guerra

O Movimento Paz no Campo vem atacando, através de um website, a Reforma Agrária, o MST e a regularização de territórios indígenas e quilombolas. Com o apoio de um príncipe sem principado, Bertrand de Bragança, da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP).

Chamado pelos seus de D. Bertrand, ele vem sendo uma figura de certo destaque no meio da inexpressiva corrente conservadora que ainda pretende manter valores incomatíveis com uma sociedade laica e moderna. Uma idéia patente em seu discurso é a de que a Reforma Agrária vai de encontro aos valores da “civilização cristã”, e por isso representa um perigo para o Brasil.

A “civilização cristã” é um grande sonho infantil, alimentada por um grupo de pessoas que detêm a propriedade de suas terras e que ocupam a parte superior da pirâmide social rural, ou seja, são os patrões. Aqueles que eles querem ver falhar em suas tentativas de garantir os próprios direitos são os empregados, os clientes, os agregados, os remanescentes, não necessariamente descendentes, da principal força de trabalho do regime escravocrata.

Recentemente, o Paz no Campo divulgou “4 mapas impressionantes”, mostrando as terras indígenas do Brasil. A intenção de mostrar esses mapas é sensibilizar os defensores da arcaica ordem. Sobre o mapa que representa o Arco Norte das áreas indígenas, que estão principalmente em faias de fronteira e se limitam com terras indígenas em países vizinhos, o Paz no Campo “denuncia” o perigo de os índios se organizarem como uma nação.

Sabe-se que a lei brasileira determina que as terras indígenas são propriedade da União, e mesmo que os indígenas concebessem, quiá conseguissem uma mobilização entre todas as etnias, haveria muitos obstáculos para uma tentativa de se criar uma nova nação, uma nação indígena. E se conseguissem, ninguém sabe se não seria uma boa. Mas o Paz no Campo assume a priori que uma nação indígena é má idéia. Talvez ainda mantenha a mentalidade do colonizador, do imperialista, que quer impedir a todo custo que a população oprimida forme uma organização autônoma e esvazie o contingente de empregados e servos que movimentam a base da economia que enriquece os patrões.

Outro mapa mostra a proposta de regularização de território Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul. O texto sugere que uma “rica e desenvolvida” não deveria ser entregue aos índios. Por quê? Eles não seriam capazes de administrar? Talvez haja aqui uma preocupação racista do mesmo tipo que imaginou que a regularização do território quilombola de Marambaia provocaria a “favelização” da ilha. Subkaz Subjazem as idéias de que índios e negros são incapazes de se civilizar e que são por natureza pobres.

O terceiro mapa apresenta a localização dos índios pelo Brasil. O texto argumenta a velha ladainha de que o Movimento Indigenista quer dar “muita terra para pouco índio”. E incorre num comentário racista, sugerindo que a regularização de territórios indígenas implica na diminuição do território brasileiro. Como se do Brasil não fizessem parte os índios.

O texto cita excertos do livro Outros 500: Construindo uma Nova História, e grifa o seguinte trecho:

quando todos nós estivermos unidos em torno dessa causa, os governantes não serão mais ninguém, apenas uma névoa que um dia manchou a história desta terra e o horizonte desta gente.

Mas não grifa o trecho que vem logo em seguida:

Nós oprimidos vamos corrigir essa história e construir um mundo melhor para os nossos filhos e também para os filhos de quem nos tem oprimido, uma sociedade justa para todos.

Acusa-se, então, o discurso acima de “nova face do comunismo e do anarquismo”, numa manifestação preconcebida, que se pauta na defesa da autoridade do poder instituído. Certas coisas dependem da lente com que se observa. No meu entender, a citação acima pretende demonstrar uma visão libertária do futuro, em que não haverá mais um poder estatal que funcione para manter uma estrutura desigual de dominação, quando tanto os descendentes dos oprimidos quanto dos opressores serão iguais.

Vale a pena reproduzir alguns trechos finais do texto:

O que está em jogo é a civilização brasileira: ou ela prossegue seu caminho trilhando os rumos benditos da Civilização Cristã, ou será entregue à barbárie a que os religiosos do CIMI querem reduzir os povos indígenas.

Será a vingança por Portugal ter descoberto do Brasil, trazendo para nós a civilização européia cristã. Essa é a longo prazo a perspectiva indigenista para nosso País [sic].

Aqui vemos como a religião é invocada para defender valores conservadores. É o que Austin Cline sustenta em interessante artigo sobre como a Ateologia pode ser um instrumento para a libertação da sociedade. De fato, somente a crença de que o passado é melhor do que qualquer avanço social poderia fundamentar discursos como o do Paz no Campo. A paz que eles querem é a manutenção dos conflitos sociais e do status quo, com a perspectiva de que as coisas devem permanecer como estão.

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2 Respostas so far »

  1. 1

    lothar said,

    Thiago,

    Não tenho grande conhecimento sobre os índios.
    Tenho lido vários comentários a respeito da grande quantidade de ongs, de várias nacionalidades, com sede nas regiões mais ricas povoadas pelos índios.
    Li tb um depoimento de pessoas que estavam trabalhando em áreas próximas
    a Raposa do Sol que depois das 18 h os índios não deixavam mais ninguém
    entrar nas estradas que cortam suas terras e só os funcionários das ongs
    é que possuiam autorização.

    Aproveito para lhe parabenizar pelo texto sobre misoginia no seu blog antigo.

    abraços

  2. 2

    Thiago Leite said,

    Lothar, não concordo com todos os métodos que os índígenas e os indigenistas usam na busca por seus direitos. E também acho complicada a ação de certas ONGs.

    Mas não por isso eu deixo de pensar que não há um projeto melhor para a população indígena do que o que atualmente o Estado está fazendo. Os argumentos de movimentos como o Paz no Campo não apresentam uma contraproposta, apenas sustentam que não deve haver Reforma Agrária, que não deve haver regularização de territórios indígenas (no máximo, sugerem que se regularize a posse da terra dos índios, descontínua, o que não mudaria muito a situação deles, e é bem diferente de regularizar o território).

    Obrigado pela visita.


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