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Corrupção e coragem

ou De como é fácil atrofiar o coração

Assisti a O gângster (American gangster), de Ridley Scott, estrelado por Denzel Washington e Russell Crowe.

Na mesma noite, sonhei que eu estava acampado com vários jovens, como se fossem colegas do trabalho, num gramado de uma praça. A cidade parecia ser Brasília, e no cenário da história muitos jovens costumavam dormir na rua, ou porque o custo da moradia era muito alto ou devido ao fato de o trabalho ser muito longe de casa.

Em certo momento, anunciou-se a chegada de um tipo de bully, que vinha arrecadar dinheiro dos outros jovens, que deveriam fazer fila, eu inclusive. Apareceram alguns jovens com aparência meio cinzenta, carecas, de longe eram como orcs, e agiam como capangas do bully, organizando a fila e recebendo as vítimas à porta de um prédio onde estava seu chefe. Eu já fui me indignando e tomando notas mentais: “Vou pegar os nomes desse pessoal e denunciá-los”.

Os jovens iam adentrando a porta aos poucos, e na minha vez entrei junto com um rapaz baixinho, que ia à minha frente. Imediatamente ele se ajoelhou, com a cabeça baixa, fazendo reverência, mas ainda havia uma escada e uns corredores a percorrer antes de encontrar o figurão. Fiz questão de andar ereto e altivo, sem me submeter àquele aviltamento. Vi uma sala sem parede, como uma reentrância ao lado direito da passagem, onde alguns jovens, comportando-se como travestis, olhavam para mim. Pensei se seria ali o destino da fila, mas vi que eles não tinham nada a ver com a situação em que eu estava. Ao longe, vi um aglomerado de jovens ajoelhados ao redor de alguém, o tal do bully. Eu estava nervoso, pois provavelmente ia ser vítima de retaliações. Acordei.

É interessante como, em vários âmbitos da vida, nos deixamos dominar apenas por causa da tradição ou por medo de que a mudança traga transtornos. Toda mudança traz transtornos, por mínimos que sejam. Por isso a coragem é uma das virtudes mais importantes, como nota André Comte-Sponville. O medo é o pior dos vícios, e há poucas coisas tão aviltantes quanto o medo de ser punido, principalmente o medo de ser jogado no Inferno por um deus sádico.

O filme de Scott mostra essa virtude na figura do policial interpretado por Crowe. Todos os policiais aceitam suborno, e isso acabou se tornando um hábito instituído, de modo que “todo policial deve sempre aceitar suborno” se tornou uma regra tácita. Mas esse policial não o aceita e é punido por fazer a coisa certa.

No ambiente controlado pelo personagem de Washington, também há regras tácitas quanto à conduta das pessoas cuja vida está rodeada pelo crime, pelo tráfico de drogas e pela traição. Estão todos bem enquanto suas vidas estiverem na mediocridade e enquanto o chefão do tráfico de drogas mantiver a “paz” à custa da opressão de qualquer manifestação que fuja ao seu controle.

Talvez a palavra coragem derive do latim cor (“coração”) devido à sensação de opressão no peito e das batidas aceleradas quando estamos com medo. O coração forte enfrenta sem titubear. O corajoso domina seu coração e não se deixa dominar pela instabilidade das emoções.

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